Diálogos Suape


Este site apresenta os principais resultados do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape (Diálogos Suape), uma grande ação de pesquisa-intervenção-pesquisa em saúde realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) entre maio de 2012 e janeiro de 2015 em dois municípios da Região Metropolitana do Recife (RMR) diretamente afetados pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal.

Suape é uma microrregião da RMR composta pelos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, e com uma população de cerca de 265 mil habitantes (conforme o Censo de 2010). Desde 2007, vem se beneficiando dos investimentos do PAC, o que propiciou a instalação de um conjunto de empresas de grande porte, como a Refinaria Abreu e Lima, a Petroquímica Suape e o Estaleiro Atlântico Sul, entre outras. Os municípios são marcados historicamente por desigualdades econômicas e sociais, das mais diferentes ordens, o que torna as comunidades que ali residem mais vulneráveis a uma diversidade de agravos à saúde e violação de direitos.

Os empreendimentos do Complexo Industrial e Portuário de Suape certamente têm promovido o crescimento econômico da região. Porém, também geraram impactos que ampliam a própria dinâmica das desigualdades. A chegada de milhares de homens, atraídos pela promessa de emprego e melhoria de vida, por exemplo, contribuiu para o fortalecimento e a realização de vários processos sociais que diminuem a qualidade de vida dos habitantes da região, inclusive dos recém-chegados. Tal encontro vem sendo marcado por uma série de antigas e novas determinações sociais que desafiam entidades públicas e privadas a projetarem ações para o atendimento das mais diferentes demandas sociais latentes, especialmente aquelas relativas às construções sociais de gênero, de sexualidade, de classe e de renda, de raça, de escolaridade, de idade e de geração, entre outras.

Considerando o contexto esboçado, o Programa Diálogos Suape teve por objetivo contribuir para o desenvolvimento social dos municípios Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca a partir de atividades que pudessem promover a redução dos índices relacionados com problemas de saúde e violência, como gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, violência masculina e violência contra as mulheres, e uso abusivo de álcool e outras drogas. Ao mesmo tempo, buscou, pela análise do processo, contribuir para o desenvolvimento de tecnologias sociais para atuação psicossocial em processos populacionais de mudança, com vistas de diminuir a vulnerabilidade a agravos e violações relacionados com sexualidade, reprodução e saúde.

A perspectiva teórica (que também é ético-política) que orientou o Programa se fundou em uma ideia de desenvolvimento social como algo que vai além do crescimento econômico. Em nosso entendimento, desenvolvimento social significa não só a diminuição das desigualdades econômicas e acesso ao consumo, mas, e sobretudo, a realização de relações sociais (engendradas por sexo/gênero, raça/etnia, idade/geração, sexualidade etc.) equitativas e justas. Entendemos que o desenvolvimento social pode ser impulsionado quando políticas públicas, programas, projetos, práticas pautam e realizam a garantia e a promoção dos direitos humanos e o enfrentamento de vetores de opressão social que ampliam as vulnerabilidades, de sujeitos e coletividades, a violações de direito e agravos à saúde.

Operacionalmente, investimos em uma perspectiva que reconhece os contextos culturais e saberes locais como horizontes de significação que devem ser respeitados e chamados ao diálogo com outras formas de saber, em especial o científico e os marcos de direitos humanos nacionais e internacionais – neste caso, atualizados pela equipe. Nesse sentido, a dialogia, entendida no sentido que Paulo Freire lhe quis conferir, pressupõe horizontalidade de poder entre os sujeitos, de modo que, coletivamente, na interação social, se possam desvelar, analisar e repactuar as relações de força, no processo que o educador denominou conscientização (Freire, 2005). Nesse quadro, é possível localizar o desenvolvimento social como necessitando estar embasado em relações solidárias e justas. Com base nesses princípios, o Programa foi constituído, contando com sete projetos, cujos títulos e objetivos são listados a seguir e objeto de reflexão no menu "Ações":

  • Conhecer o Território: Identificar as políticas, os programas e os equipamentos sociais existentes nos municípios, os indicadores sociais e as concepções da população sobre os agravos que são objeto da intervenção;
  • Ação Juvenil: Instrumentalizar jovens de 16 a 19 anos, de ambos os sexos, como lideranças capazes de atuar na produção e na disseminação de informações qualificadas nos campos dos direitos da criança e do adolescente, da saúde sexual e reprodutiva, do uso abusivo de álcool e de outras drogas, e no enfrentamento a agravos de saúde e violações de direitos;
  • Caravana da Cidadania: Mobilizar as comunidades locais e instrumentalizar profissionais dos campos da saúde, da educação e da responsabilização para a promoção da saúde sexual e reprodutiva, o combate à violação dos direitos sexuais e o enfrentamento do uso abusivo do álcool e de outras drogas;
  • Chá de Damas: Engajar e capacitar profissionais do sexo adultos dos municípios no enfrentamento das DSTs/Aids e da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes;
  • Mulheres e Educação para Cidadania: Contribuir para o empoderamento de mulheres e jovens dos dois municípios, com ações formativas e informativas para o enfrentamento à violência doméstica e sexual na microrregião de Suape;
  • Homens, Gênero e Práticas de Saúde: Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas: Sensibilizar e informar os trabalhadores das empresas terceirizadas para a promoção da saúde sexual e reprodutiva, a prevenção da violência e o uso abusivo de álcool e de outras drogas;
  • Observatório Suape: Disseminar informações e recursos desenvolvidos no âmbito do projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape.

Estiveram à frente do processo a UFPE (executora), o Instituto Papai e o Centro das Mulheres do Cabo (coexecutores), bem como a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da UFPE (Fade-UFPE) (interveniente administrativo-financeira). O Programa foi financiado pela Refinaria Abreu e Lima S.A., a Petroquímica Suape, o Consórcio RNEST Conest, a Alusa Engenharia e o Consórcio RNEST O. C. Edificações (EIT/Engevix), e contou com o apoio institucional do Departamento Nacional de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde do Brasil, do governo do estado de Pernambuco e das prefeituras de Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca.

Por fim, queremos dizer que este site busca disponibilizar para a população mais ampla os principais resultados do Programa. Em "Suape", os leitores encontrarão informações sobre o contexto da pesquisa-intervenção-pesquisa na ocasião do início do programa. Em "Ações", apresentamos o desenvolvimento e os resultados de cada um dos subprojetos que compuseram o Programa Diálogos Suape. Em nosso "Centro de Documentação e Recursos" o leitor encontrará, em "Direitos sexuais: recursos para intervenções comunitárias", os materiais informativos educacionais utilizados nas intervenções e, em "Livros, dissertações e artigos", o conjunto de publicações que analisam o processo. Talvez, de todas as contribuições do Diálogos Suape, o site seja uma das principais, na medida em que é a mais perene e a que poderá dar suporte teórico e metodológico para a elaboração e a implantação de outras ações no campo da promoção do desenvolvimento social.

Desejamos uma instigante e inspiradora leitura!


Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.





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